Palavras nunca foram acções. A hegemonia dos conceitos do Bem, da Justiça, da Liberdade, da Perfeição, da Virtude, do Correcto e de Deus sempre esteve em causa.
Porquê? Porque as palavras suportam mais que o simples propósito descritivo da matéria e do espírito, do pensamento e da acção. Significam mais que conceitos históricos perdidos nas enciclopédias; mais que sinónimos e antónimos inúteis na prática; mais que verbos não materializados, errantes no mundo em que tudo nas palavras cessa. Os pensamentos findam na palavra.
As acções desculpam-se por palavras, tal como se glorificam com palavras. Mas jamais palavra alguma criou uma acção, tal como nunca essa acção derivou do verdadeiro pensamento do pensador. As palavras são pura teatralização do universo humano. As palavras proferidas por qualquer homem ou mulher visam apenas um único fim – a personificação do desejo.
Fala Saramago em palavras boas. Bondade humana é trivial hipocrisia. As palavras pedem desculpa. As desculpas são mentiras para esconder a verdade revelada. As palavras que acariciam servem para satisfazer a luxúria. Mas as palavras que são más, que ofendem e que queimam…essas são a pura Verdade do ser humano. O conceito de palavra é primário e elementar…palavra é Mentira, é Egoísmo, é todo o Mal que emana do Homem.
O Homem que pensa, fala e depois não faz. Saramago diz que “as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem”. As palavras seriam boas se fossem feitas para pensar e não feitas por pensamentos. É esse o grande dilema, as pessoas transmitem por palavras pensamentos demasiado pensados e acabam por não fazer o que pensam, por dizer o que não fazem, por fazer o que não dizem, por pensar e não dizer e fazer sem pensar, e persuadem os outros com as suas palavras induzindo-se a eles próprios no erro. E mesmo os convictos (que sempre foram raros) suportam aquele temor do Julgamento das multidões. Aquele que fala para o público pensando na verdade e na sua crença acaba sempre por se enredar nos seus argumentos perante os olhares recriminadores da sociedade. É suspeita a oratória contemporânea. O bom orador, aquele que sabe argumentar não tem de ter retórica nem tem de falar calmamente : tem de ser convicto nas palavras expelindo com estas toda a sua raiva, porque o que leva á prática não é o bem-falar, nem mesmo a razão que os argumentos sustentam – é o sentimento que elas transmitem.
Palavras más muitas vezes suportam razão. Devemos ofender os injustos, “queimar” os bárbaros e revelar verdades inconvenientes. É necessário censurar aqueles que falam demais e nada dizem. Oprimir aqueles que usam a liberdade de expressão para silenciar a verdade e enaltecer os seus interesses obtusos. É urgente a Verdade subir ao trono. É necessária a metamorfose das palavras em acções. É essencial criar uma nova Ordem – falar para pensar e depois actuar sob a égide do pensamento. Que se faça silêncio se necessário. Que brotem dele as fecundas palavras da Justiça, da Liberdade e da Verdade. Queimem o joio e ceifem o trigo, porque apenas o trigo dará o tão necessário pão; condenem as más palavras e exaltem as boas, porque apenas elas salvarão a Humanidade da decadência e do Inferno da Mentira.
A clareza, ideal rústico
ResponderExcluirCioran, que sabia do que estava a falar, afirmava que não há pior infelicidade para um autor do que ser compreendido. O adágio vale para todas as pessoas implicadas num debate em que a escolha formal das palavras tenha tanta importância como o conteúdo da disputa. A clareza, ideal rústico, singulariza as ideias, identifica-se e establece firmemente os seus limites. Ora, qualquer ideia tem o seu lado fraco. " Não existem ideias inexpugnáveis". Mostrar à luz do dia todas as saliências da posição defendida é ixebir irreflectidamente o plano da fortaleza perante os olhos do inimigo. No plano táctico, é difícil reparar nesse erro, pelo menos quando enfrentamos um adversário hábil no debate. Quanto ao fundo da questão, é como se existisse um pecado contra o espírito: é uma vaidade dar a entender que se analisou exaustivamente uma ideia! As palavras devem preservar a cepa através da qual se nutrem nas profundenzas intelectuais, por definição obscuras, frágeis e complexas. É isso que explica a superioridade e a riqueza inesgotável de certos aforismos, por comparação com o desenvolvimento laborioso do didactismo.
É bom que não sejamos compreendidos completamente, às vezes, ainda é melhor nem sequer o sermos.
Caro Beaumarchais, não proponho que mergulhemos nas trevas do palavreado, recurso dos espíritos confusos ou pesados, mas que nos movimentemos no claro- escuro das alusões.
Vivemos numa era de persiguições ofegantes por labirintos adentro, vivemos na era de emboscadas , de subtilezas capciosas... Também não lhe proponho a prática do Koan.
Em suma, as palavras são , na sua maioria, a doxa do maniqueismo humano.