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segunda-feira, 21 de março de 2011

A metamorfose da Palavra

Palavras nunca foram acções. A hegemonia dos conceitos do Bem, da Justiça, da Liberdade, da Perfeição, da Virtude, do Correcto e de Deus sempre esteve em causa.
Porquê? Porque as palavras suportam mais que o simples propósito descritivo da matéria e do espírito, do pensamento e da acção. Significam mais que conceitos históricos perdidos nas enciclopédias; mais que sinónimos e antónimos inúteis na prática; mais que verbos não materializados, errantes no mundo em que tudo nas palavras cessa. Os pensamentos findam na palavra.
As acções desculpam-se por palavras, tal como se glorificam com palavras. Mas jamais palavra alguma criou uma acção, tal como nunca essa acção derivou do verdadeiro pensamento do pensador. As palavras são pura teatralização do universo humano. As palavras proferidas por qualquer homem ou mulher visam apenas um único fim – a personificação do desejo.
Fala Saramago em palavras boas. Bondade humana é trivial hipocrisia. As palavras pedem desculpa. As desculpas são mentiras para esconder a verdade revelada. As palavras que acariciam servem para satisfazer a luxúria. Mas as palavras que são más, que ofendem e que queimam…essas são a pura Verdade do ser humano. O conceito de palavra é primário e elementar…palavra é Mentira, é Egoísmo, é todo o Mal que emana do Homem.
O Homem que pensa, fala e depois não faz. Saramago diz que “as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem”. As palavras seriam boas se fossem feitas para pensar e não feitas por pensamentos. É esse o grande dilema, as pessoas transmitem por palavras pensamentos demasiado pensados e acabam por não fazer o que pensam, por dizer o que não fazem, por fazer o que não dizem, por pensar e não dizer e fazer sem pensar, e persuadem os outros com as suas palavras induzindo-se a eles próprios no erro. E mesmo os convictos (que sempre foram raros) suportam aquele temor do Julgamento das multidões. Aquele que fala para o público pensando na verdade e na sua crença acaba sempre por se enredar nos seus argumentos perante os olhares recriminadores da sociedade. É suspeita a oratória contemporânea. O bom orador, aquele que sabe argumentar não tem de ter retórica nem tem de falar calmamente : tem de ser convicto nas palavras expelindo com estas toda a sua raiva, porque o que leva á prática não é o bem-falar, nem mesmo a razão que os argumentos sustentam – é o sentimento que elas transmitem.
Palavras más muitas vezes suportam razão. Devemos ofender os injustos, “queimar” os bárbaros e revelar verdades inconvenientes. É necessário censurar aqueles que falam demais e nada dizem. Oprimir aqueles que usam a liberdade de expressão para silenciar a verdade e enaltecer os seus interesses obtusos. É urgente a Verdade subir ao trono. É necessária a metamorfose das palavras em acções. É essencial criar uma nova Ordem – falar para pensar e depois actuar sob a égide do pensamento. Que se faça silêncio se necessário. Que brotem dele as fecundas palavras da Justiça, da Liberdade e da Verdade. Queimem o joio e ceifem o trigo, porque apenas o trigo dará o tão necessário pão; condenem as más palavras e exaltem as boas, porque apenas elas salvarão a Humanidade da decadência e do Inferno da Mentira.